A poética cearense, com sua multiplicidade de ares, em fluxos de aconchego, drama e luta por transformação, tem sido cantada por artistas dos mais variados estilos musicais, cores de peles, gerações, gêneros, preferências sexuais, geografias e sotaques do Brasil. O auge dessa atenção, que marcou o cenário fonográfico brasileiro, ocorreu na metade do século passado (séc. XX), período em que o Ceará teve sua maior influência na música popular do país.
Essa intensa e substancial participação de artistas do Ceará está resumida pelo pesquisador cearense Jairo Severiano (1927 – 2022) no livro “Uma história da Música Popular Brasileira” (Editora 34, 2013): “O Bando da Lua começou com três cearenses – os irmãos Osório –, os Quatro Ases e um Curinga, com cinco, sendo três deles irmãos – os Pontes Medeiros. Um pouco mais adiante, os Vocalistas Tropicais também contariam com cinco cearenses em sua formação. Vê-se assim que nos anos 30 e 40 o Ceará forneceu muita gente boa para os conjuntos vocais”. Severiano lembra ainda que o “Bando da Lua” mudou-se para os Estados Unidos, em 1939, para acompanhar a cantora Carmen Miranda (1909 – 1955).
Do Ceará que se fez presente no Rio de Janeiro da década de 1950, teve grande influência também o compositor Lauro Maia (1913 – 1950) e o Trio Nagô (Evaldo Gouveia, Mário Alves e Epaminondas de Souza). As composições de Evaldo Gouveia (1928 – 2020) são ainda hoje as mais populares dos artistas cearenses na atemporalidade musical brasileira, cantadas por Agnaldo Rayol, Agnaldo Timóteo, Alaíde Costa, Altemar Dutra, Ana Carolina, Ângela Maria, Banda Dona Zefinha, Cauby Peixoto, Chitãozinho e Xororó, Cris Braun, Dalva de Oliveira, Emílio Santiago, Fafá de Belém, Gal Costa, Jair Rodrigues, Joanna, Marcos Lessa, Maria Bethânia, Maysa, Moacyr Franco, Nélson Gonçalves, Nora Ney, Wilson Simonal e Zizi Possi.
Sinto a agradável reverberação dessas tantas vozes, que valorizaram e valorizam a arte musical do Ceará e que consagraram a cultura cearense com suas interpretações, ao escutar a cantora paulistana Virgínia Rosa soltando alegremente para o mundo o reggae “Ceará Negro”, que compus com o músico paulista Paulo Lepetit para ser o toque de chegada e o som de estradar do meu livro “Ceará Negro e outros temas de África” (Omni, 2025).
- Seu Jorge
- O Rappa
- Daúde
- Trio Marayá
- Marlene
- Luiz Gonzaga
- Almirante
- Virgínia Rosa
- Flávio Paiva e Paulo Lepetit
De ascendências indígena e negra mineira, Virgínia Rosa é uma paulistana com admirável presença no campo fértil da música plural brasileira. Na década de 1980, foi vocalista da banda Isca de Polícia, de Itamar Assumpção (1949 – 2003) e, nos anos seguintes, passou a trilhar carreira solo interpretando Itamar, Luiz Gonzaga (1912 – 1989), Lenine, Chico Science (1966 – 1997), Chico César, Luiz Melodia (1951 – 2017), Jorge Benjor, Cartola (1908 – 1980) e Candeia (1935 – 1978), entre tantos nomes inspiradores da nossa música.
Os álbuns e shows de Virgínia Rosa integram organicamente o corpo de som da arte brasileira. Ela já cantou o repertório de Clara Nunes (1942 – 1983), dividiu palco com Jair Rodrigues (1939 – 2014) em aniversário da cidade de São Paulo (2008), homenageou Paulo Vanzolini (1924 – 2013), fez o papel de Dona Zica (1913 – 2003) no musical “Cartola – O mundo é um moinho” e, desde 2004, ao lado de Lucinha Lins e Tânia Alves, canta músicas de Chico Buarque no espetáculo “Palavra de Mulher”, que segue em temporada pelo Brasil.
No meu livro “Invocado – Um Jeito Brasileiro de Ser Musical” (Armazém da Cultura, 2017), ressalto a relevância de artistas de outros lugares do país cantarem as coisas do Ceará, e relaciono diversos desses nomes e as respectivas canções a que deram voz. Destaco essencialmente a investida coletiva de artistas cearenses no ambiente da indústria cultural carioca nos anos 30, 40 e 50 (quando o Rio de Janeiro era a capital federal), que estimulou muitos cantares inspirados em significantes de suas origens.
Relacionei exemplos como o do sambista carioca Almirante (1908 – 1980), na toada “Vou deixar meu Ceará” (1937), de autoria do compositor cearense Sá Róris; do coco “Pedido a Padre Cícero” (1959), do compositor baiano Gordurinha (1922 – 1969), na voz do paraense Ary Lobo (1930 – 1980); e do intérprete mineiro Ivon Curi (1928 – 1995) cantando “Praça do Ferreira” (1961), de Gordurinha e Nelinho, os mesmos autores do baião-toada “Súplica Cearense” (1960), gravado pelo próprio Gordurinha, com sucesso repetido em 1979 pelo cantor pernambucano Luiz Gonzaga.
Das muitas composições de autores não cearenses que nesse período de ebulição expressaram sentimentos de cearensidade, citei ainda “No Ceará é assim” (1942), do paraense Carlos Barroso, “Saudade do Ceará” (1958), dos cariocas Buci Moreira e João Sales, e “Terra seca” (1943), do compositor mineiro Ary Barroso (1903 – 1964). Muitas dessas referências foram colhidas por mim em conversas com o pesquisador e memorialista Miguel Ângelo de Azevedo Nirez na sua casa-arquivo da rua Professor João Bosco, 560, no bairro Rodolfo Teófilo, em Fortaleza.
Na calçada da Rua Baturité, 162 (Rua da Escadinha), no Centro de Fortaleza, na casa-museu do ‘juntador de coisas’ Christiano Câmara (1936 – 2016), ouvi dele boas referências de outros tantos artistas de fora do Ceará que se voltaram para temas cearenses. Paraguassu (Roque Ricciardi,1894 – 1976), o cantor paulista das noites enluaradas, gravou a toada “Poeta do Sertão” (1936), de Catulo da Paixão Cearense (1863 – 1946), que mesmo sendo maranhense de nascimento adotou sobrenome artístico em homenagem ao Ceará, onde viveu seus tempos de adolescência.
Entre as variadas abordagens da poética do Ceará, há todo um precioso repertório produzido em parceria pelo cearense Humberto Teixeira (1915 – 1979) e por Luiz Gonzaga, do qual destaco “Estrada de Canindé”, com sua lírica conexão entre cultura e natureza. O maestro pernambucano Guio de Moraes compôs o baião “No Ceará Não Tem Disso Não”, gravado em 1950 também por Luiz Gonzaga. Em 1953, na chamada era de ouro do rádio, “Eu vou pro Ceará” (Humberto Teixeira) foi gravada pela cantora e atriz paulistana Marlene (1922 – 2014) e pelo carioca Paulo Tapajós (1913 – 1990). Da criação do ator, compositor e cantor cearense Catulo de Paula (1923 – 1984), o Trio Marayá, norte-rio-grandense, gravou “Choveu no Ceará” também na década de 1950.
A mesma reverberação agradável que sinto ao apreciar esse cancioneiro de não cearenses cantando o Ceará está presente de maneira esparsa nas últimas décadas em diversas interpretações repaginadas. A cantora baiana Daúde, por exemplo, em 1995 acelerou os bits para seguir a quentura dos versos de Patativa do Assaré (1909 – 2002) em “Vida Sertaneja”; o grupo carioca O Rappa fez um reggae do clássico “Súplica Cearense” (2008); e a banda BaianaSystem, com a participação do cantor carioca Seu Jorge, catapultou o afrorrock “Praia do Futuro” (Russo Passapusso, Antônio Carlos & Jocafi) nas plataformas, celebrando um reencontro de amor em Fortaleza.
A propositura do livro “Ceará Negro e outros temas de África” no sentido de que o feriado de 25 de março, a Data Magna do Ceará, seja um dia de luta antirracista e pela igualdade racial no Ceará, manifestado no reggae “Ceará Negro”, que Paulo Lepetit e eu fizemos, e que Virgínia Rosa gavou lindamente, tem antecedente na toada de samba-exaltação “Terra da Luz” (Humberto Teixeira), gravada em 1945 pelo cantor carioca-libanês Déo (Ferjalla Rizkalla, 1914 – 1971).
A mensagem da música “Terra da Luz”, que na voz de Déo chama a atenção para a greve de jangadeiros (1881) liderada por Dragão do Mar (Chico da Matilde, 1839 – 1914), diz assim: “Eu bem sei que é bem nosso / O orgulho de um povo que eleva e seduz / O gesto altaneiro de audaz jangadeiro / Mandando que todo navio negreiro / Passasse bem longe da Terra da Luz”. Em 2025, 80 anos depois dessa obra de Humberto Teixeira, o eco do ato de libertação de escravizados na Vila de Acarape / Redenção (1883), que foi determinante para a formalização da abolição no Ceará (1884), quatro anos antes do restante do Brasil, avisa em “Ceará Negro”, na voz de Virgínia Rosa, que para seguir avançando é preciso comemorar as conquistas dos antepassados: “O dia chegou / E eu vim feliz te encontrar” (…) É festa / É festa / É festa / Na Terra da Luz”.
Fonte:
www.rivista.com.br